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Eleição decidida: o que esperar da economia nas primeiras semanas do quarto mandato de Lula

O mercado precificou outro resultado e agora desfaz a aposta. Entenda a reação dos ativos, como ela chega à economia real, o calendário das próximas semanas e por que os primeiros sinais fiscais pesam mais que a abertura de hoje.

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Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em 2007

O Brasil acordou nesta segunda-feira com o resultado das urnas definido e o mercado ainda digerindo uma surpresa. A reação inicial dos preços já é conhecida. O que ainda não se sabe, e que vai definir os próximos meses, é a resposta à pergunta que investidores fazem desde domingo à noite: qual será a âncora fiscal do novo mandato?

O resultado

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito no domingo (25) ao derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno e terá um quarto mandato, até dezembro de 2030. Com 99,91% das urnas apuradas, Lula teve 51,77% dos votos válidos, contra 48,23% do adversário (Migalhas). O resultado é uma virada em relação ao primeiro turno, em 4 de outubro, quando Flávio terminou à frente, com 47% contra 45%.

Ainda na noite de domingo, Flávio anunciou que vai recorrer à Justiça para pedir a anulação da eleição, contestando a decisão do ministro do STF Cristiano Zanin de prorrogar a votação em locais onde as urnas ainda estavam abertas (Rádio Senado). Ele não apresentou provas de que a extensão do horário tenha alterado o resultado, e outros nomes da direita não aderiram à contestação; Ronaldo Caiado, que o apoiou no segundo turno, reconheceu a vitória de Lula. Para os mercados, esse ponto tende a ser ruído de curto prazo, a não ser que ganhe tração institucional.

A reação dos mercados

O mercado vinha precificando outro desfecho. No pregão seguinte ao primeiro turno, com Flávio à frente, o Ibovespa subiu 7,7% e chegou a 209,6 mil pontos, enquanto o dólar recuou para cerca de R$ 5,00 (Poder360). Esse movimento ganhou até um nome entre analistas, o “rali eleitoral”, e é ele que agora está sendo desfeito.

Antes mesmo da abertura da B3, os sinais vieram de fora:

IndicadorAntes (sexta, 23/10)Domingo à noite e madrugada
Ibovespa205.082 pontos, alta de 0,47%Abre às 10h; risco de circuit breaker
DólarR$ 4,9931, queda de 0,92%Perto de R$ 5,52 no mercado futuro de Chicago
EWZ (fundo de ações brasileiras em Nova York)—Chegou a cair 18,5%; no pré-mercado, a queda passava de 26%
Fundo do Ibovespa em Tóquio—Queda de 14,4%, maior que a alta de quase 8% após o primeiro turno
Fontes: InfoMoney, InfoEconomics, Money Times, Bloomberg Línea e InvestirEComeçar (25 e 26/10/2026).

Um detalhe técnico ajuda a ler esses números sem exagero. O EWZ é cotado em dólar, então sua queda soma duas coisas: ações mais baratas e real mais fraco. Além disso, o pregão noturno tem pouco volume. Descontada a alta do dólar, os cerca de 18% de queda em Nova York equivalem a algo perto de 10% em reais (InvestirEComeçar). O número que vale, no fim, é o da B3.

As projeções para o pregão de hoje são de forte volatilidade. Em relatório divulgado após o segundo turno, o JPMorgan avaliou que o resultado contrariou tanto as pesquisas mais recentes quanto os mercados de apostas, que davam cerca de 75% de chance de vitória a Flávio Bolsonaro. O banco projeta que o múltiplo preço/lucro da bolsa, de 9,7 vezes na sexta-feira, poderia recuar para 8,3 vezes num primeiro momento (queda de cerca de 14%) e se aproximar de 7 vezes depois (desconto próximo de 28%). No câmbio, trabalha com dólar a R$ 5,50, mas reduziu a recomendação para o real a neutra: como os juros brasileiros são muito mais altos que os americanos, manter uma aposta no dólar custa caro enquanto ela não se realiza (InfoMoney).

Outras casas seguem a mesma direção. A Oby Capital trabalha com uma reação inicial que levaria o dólar a R$ 5,50–5,70, os juros futuros longos a subir de 1 a 1,5 ponto percentual e o Ibovespa a cair de 6% a 10% (InfoEconomics). Um estudo da Monte Bravo estimou uma queda intradiária mediana de 11,3% no Ibovespa nesse cenário (Revista Oeste), e o Bradesco BBI rebaixou a recomendação para ações brasileiras de overweight para neutra.

Se o Ibovespa cair 10% sobre o fechamento de sexta, entra em ação o circuit breaker: a negociação é interrompida por 30 minutos; se a queda chegar a 15%, a pausa é de uma hora; e, em 20%, a B3 define o período de interrupção (Brazil Journal). Vale uma ponderação histórica: em eleições anteriores, o índice caiu em 3 das 5 segundas-feiras depois do segundo turno. Segundas tensas não são novidade; o tamanho do movimento de hoje reflete sobretudo o quanto o resultado contrariou o que estava nos preços.

Por que o mercado reagiu assim

A explicação tem menos a ver com o nome do vencedor e mais com o que estava precificado. Segundo Daniel Wainstein, da Seneca Evercore, o Ibovespa acumulava alta de 27,3% no ano, e parte da expectativa de mudança de governo já estava nas cotações (Terra). Quando um cenário vira consenso e não se confirma, a correção é proporcional à aposta, como explicamos no artigo sobre correlação e diversificação: posições concentradas na mesma direção amplificam os movimentos. Muitos gestores haviam aumentado a exposição a ações sensíveis a juros nos últimos dias, justamente para capturar uma possível alta em caso de vitória de Flávio.

O pano de fundo é fiscal. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central. O governo argumenta que fez ajuste: o déficit do governo central caiu de 2,1% do PIB em 2023 para 0,48% em 2025, segundo o Tesouro, e o programa registrado no TSE atribui ao arcabouço fiscal um esforço de cerca de 2% do PIB entre 2023 e 2026. Os críticos respondem que as metas foram cumpridas com despesas retiradas da conta, como parte dos precatórios, e que o programa não fixa metas de resultado primário nem trata da trajetória da dívida (InvestNews). É nessa diferença de leitura que mora o prêmio de risco.

Os canais de transmissão: como o mercado chega à economia real

A queda da bolsa é o sintoma mais visível, mas o impacto na vida real passa por três canais:

  • Câmbio → inflação. Um dólar mais caro encarece importados, combustíveis e insumos. Pelas estimativas do próprio Banco Central, uma desvalorização de 10% do real eleva a inflação em cerca de 1 ponto percentual nos 12 meses seguintes e em 1,6 ponto em 24 meses. Com o IPCA de 2026 projetado em 5,22%, já acima do teto da meta, há pouca margem para absorver esse choque.
  • Juros futuros → crédito. A alta das taxas longas encarece financiamentos imobiliários, crédito para empresas e a rolagem da própria dívida pública, independentemente do que o Copom fizer com a Selic.
  • Expectativas → Selic. Se dólar e expectativas de inflação piorarem de forma persistente, o Banco Central pode desacelerar ou pausar o ciclo de cortes. É aqui que entra o juro neutro, tema do nosso artigo de hoje: risco fiscal maior tende a elevar essa régua e, com ela, o piso da Selic.

O calendário das próximas semanas

DataEventoPor que importa
Hoje (26/10)Abertura da B3 e vencimento da subvenção ao dieselA subvenção de R$ 2,12 por litro, renovada a cada 30 dias desde maio, vence hoje e depende de nova portaria da Fazenda; é o primeiro sinal concreto de política econômica
3 e 4/11Reunião do CopomPrimeira decisão de juros após a eleição; o tom do comunicado vale mais que o corte
9/11Fim da isenção sobre gasolina e etanolVence a isenção de PIS, Cofins e Cide sobre a gasolina e de PIS e Cofins sobre o etanol
Novembro e dezembroAnúncio da equipe econômicaHá cinco nomes cotados para a Fazenda; a escolha é o principal sinal para o mercado
Até 19/12Diplomação dos eleitosEncerra formalmente o processo eleitoral
DezembroVotação do Orçamento de 2027Define a meta fiscal do primeiro ano do mandato
Fevereiro de 2027Posse do novo CongressoO PL terá 121 das 513 cadeiras da Câmara, seguido por PT (70), União Brasil (46), PSD (43), PP (41) e Republicanos (41)
Fontes: InvestNews, Agenda do Poder, O Liberal e TSE.

O que está sobre a mesa

A âncora fiscal. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, discute com Lula uma proposta para endurecer o arcabouço, reduzindo de 2,5% para 1,5% o limite de crescimento real das despesas e criando gatilhos para conter gastos obrigatórios. Em paralelo, o governo prepara uma PEC para reforçar a meta fiscal e reduzir o crédito subsidiado, cujo envio depende da decisão de Lula e da composição da equipe econômica (Agenda do Poder). Se essas propostas forem adotadas, seria o tipo de sinal que costuma reduzir prêmios de risco. Se ficarem no papel, o efeito tende a ser o oposto.

O Orçamento de 2027. A proposta enviada ao Congresso fixa meta de superávit de R$ 73,2 bilhões (0,5% do PIB), mas permite descontar até R$ 65,6 bilhões em despesas como precatórios. Contando todos os gastos, o superávit previsto é de R$ 18,6 bilhões. Auxiliares do presidente estudam ampliar esse número.

A relação com o Congresso. Nenhum partido terá maioria isolada nas duas Casas, mas o tamanho das bancadas dará ao PL peso central nas negociações legislativas e na escolha dos comandos da Câmara e do Senado a partir de 2027. Qualquer ajuste que dependa de emenda constitucional vai exigir negociação ampla.

Estudo de caso: 2002 e 2022, duas transições, dois desfechos

A história recente mostra que os sinais das primeiras semanas pesam mais que o resultado em si.

2002. A perspectiva de vitória de Lula levou o dólar a quase R$ 4 em outubro daquele ano e o risco-país a superar 2.000 pontos. A virada veio com sinais concretos: a Carta ao Povo Brasileiro, a escolha de Antonio Palocci para a Fazenda e de Henrique Meirelles para o Banco Central, e a elevação da meta de superávit primário em 2003. O dólar terminou 2003 abaixo de R$ 2,90.

2022. Na transição, o mercado reagiu mal à PEC da Transição, que abriu espaço para gastos extras de R$ 168 bilhões, e à demora em definir uma nova regra fiscal. O estresse só diminuiu ao longo de 2023, com a aprovação do arcabouço.

A lição comum: o mercado precifica rapidamente o pior cenário e devolve parte da queda quando aparecem sinais críveis. O inverso também vale: sem sinais, o estresse se prolonga.

Cenários para as próximas semanas

CenárioO que precisaria acontecerEfeito provável
AlívioEquipe econômica bem recebida, PEC fiscal enviada, meta de 2027 reforçadaDevolução de parte da alta do dólar e dos juros; Copom mantém cortes
BaseSinais mistos, anúncios graduais, negociação longa com o CongressoVolatilidade alta, dólar acima do nível pré-eleição, Copom cauteloso
EstresseAmpliação de gastos sem compensação, prorrogação de subsídios sem fonteDólar pressionado, inflação esperada em alta, pausa ou fim do ciclo de cortes
Elaboração do Mercado Financeiro Semanal.

Há também argumentos de suporte para os ativos brasileiros além do fiscal. Para o Lombard Odier, a volatilidade deve persistir no curtíssimo prazo, mas o valuation e o peso das commodities sustentam o país (Bloomberg Línea). E a Fitch avalia que haverá aperto fiscal no Brasil independentemente do resultado da eleição, o que sugere que parte do ajuste é imposta pela própria aritmética das contas.

Riscos e limitações desta análise

  • Texto escrito antes da abertura da B3. Os números do pregão de hoje podem diferir bastante das indicações do exterior, que ocorrem com liquidez reduzida.
  • Projeções de casas de análise não são limites. As faixas citadas são estimativas e podem ser superadas em qualquer direção.
  • O cenário externo também pesa. O Fed subiu os juros em setembro, para a faixa de 3,75% a 4,00%, o que reduz o apetite global por mercados emergentes.

O que isso significa para quem investe

Sem recomendar ativos, três princípios dos artigos anteriores ajudam a atravessar semanas como esta.

  • Evitar decisões no calor do momento. Como vimos no artigo sobre risco de sequência de retornos, vender no pior dia transforma oscilação em perda definitiva.
  • Lembrar da marcação a mercado. Títulos prefixados e atrelados à inflação podem mostrar perdas temporárias com a alta dos juros futuros. Essas perdas só se realizam em caso de venda antes do vencimento.
  • Valorizar a diversificação. Episódios como este mostram, na prática, por que uma parcela em ativos que andam em direção oposta à bolsa brasileira, como o dólar, reduz a volatilidade da carteira.

Conclusão

A reação dos mercados nesta segunda-feira mede a distância entre o que estava precificado e o que aconteceu. O que vai definir as próximas semanas, porém, não é a abertura de hoje, e sim os sinais que o governo der sobre a âncora fiscal: os nomes da equipe econômica, o destino da PEC fiscal, as decisões sobre subsídios aos combustíveis e a meta de 2027.

Do outro lado, o Banco Central observa o câmbio e as expectativas antes de decidir, em 4 de novembro, se o ciclo de cortes continua no mesmo ritmo. Em 2002 e em 2022, o mercado mostrou que pune a incerteza rápido e recompensa sinais críveis devagar. Tudo indica que 2026 seguirá o mesmo roteiro.

Glossário

TermoDefinição
Circuit breakerInterrupção automática dos negócios na B3 quando o Ibovespa cai 10%, 15% ou 20% no dia.
EWZFundo de índice negociado em Nova York, cotado em dólar, que replica ações brasileiras.
Múltiplo preço/lucro (P/L)Quantas vezes o lucro anual das empresas o mercado aceita pagar pelas ações; quanto menor, mais barata a bolsa.
Rali eleitoralAlta de ativos motivada pela expectativa de um resultado eleitoral.
Arcabouço fiscalRegra aprovada em 2023 que limita o crescimento real das despesas públicas.
Resultado primárioReceitas menos despesas do governo, sem contar juros da dívida.
Repasse cambialEfeito da variação do dólar sobre a inflação doméstica.
Juros futurosTaxas negociadas na B3 que indicam a expectativa do mercado para os juros ao longo do tempo.
Ponto percentualDiferença entre duas taxas em porcentagem. De 5% para 9%, a alta é de 4 pontos percentuais.
Risco-paísPrêmio exigido por investidores para financiar um país, acima de títulos considerados sem risco.

Próximos temas

  1. Prêmio de risco: quanto a bolsa precisa render acima do CDI para compensar o risco, e por que essa régua é tão alta no Brasil.
  2. Beta: quanto uma ação amplifica ou amortece os movimentos do Ibovespa, e por que ele é a outra face da correlação.
  3. Repasse cambial: como a alta do dólar chega ao preço do pão, e por que o Banco Central acompanha esse número de perto.

Referências


Imagem de capa: Bolsa de Valores de São Paulo. Foto: Rafael Matsunaga, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons. Conteúdo educativo; não é recomendação de investimento.

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