Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, quem abriu o aplicativo do Tesouro Direto levou um susto. O investimento considerado o mais seguro do país aparecia no negativo, em alguns casos com perdas de dois dígitos em um único dia. Foi um dos dias de maior alta dos juros em toda a série histórica do programa, e o motivo tem nome: marcação a mercado. Este é o terceiro artigo da nossa série sobre o pós-eleição. Depois do circuit breaker na bolsa, a pergunta agora é outra: como um título do governo pode “perder dinheiro”? E, mais importante, quando essa perda é de verdade?
O conceito
Comprar um título do Tesouro é emprestar dinheiro ao governo. Num Tesouro Prefixado, o acordo é simples: você paga um valor hoje e recebe R$ 1.000 por título na data de vencimento. A taxa que você “trava” na compra define quanto você paga hoje por esses R$ 1.000 futuros.
O ponto central é que esse título pode ser vendido antes do vencimento, e o preço de venda não é fixo. Ele é recalculado todo dia, com base na taxa que o mercado está pedindo naquele momento. Isso é a marcação a mercado: o saldo que aparece no aplicativo não é quanto você vai receber no vencimento, e sim quanto o seu título valeria se fosse vendido hoje.
Por que o preço cai quando a taxa sobe? Pense assim. Você comprou um título que paga 12,89% ao ano. No dia seguinte, o governo passa a oferecer títulos parecidos pagando 15,50%. Ninguém vai querer pagar o mesmo preço pelo seu título, que rende menos. Para alguém aceitar comprá-lo, o preço precisa cair até o ponto em que ele também renda 15,50% para o novo dono.
A conta que liga preço e taxa é uma só:
Em que P é o preço do título hoje, VF é o valor que ele paga no vencimento (R$ 1.000, no caso do prefixado), i é a taxa anual de mercado e DU é o número de dias úteis até o vencimento. Como a taxa está no denominador, quando ela sobe, o preço cai. E como ela está elevada ao prazo, quanto mais longe o vencimento, maior o efeito.
Como funciona na prática
Prazo é o que amplifica o tombo
A mesma alta de juros não pesa igual em todos os títulos. Um prefixado que vence daqui a dois anos sofre pouco, porque falta pouco tempo para o desconto agir. Um que vence daqui a 25 anos sofre muito. Uma regra de bolso ajuda: para um prefixado de cerca de cinco anos, cada 1 ponto percentual de alta na taxa tira algo perto de 4,5% do preço. Essa sensibilidade ao prazo tem nome técnico, duration.
A segunda-feira mostrou isso com clareza. Na abertura das negociações, os títulos tinham estas variações de preço em relação a sexta-feira (Money Times):
| Título | Variação de preço em 26/10 |
|---|---|
| Tesouro Prefixado 2029 | −4,83% |
| Tesouro Prefixado 2032 | −12,16% |
| Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 | −12,33% |
| Tesouro IPCA+ 2032 | −7,13% |
| Tesouro IPCA+ 2040 | −14,02% |
| Tesouro IPCA+ 2050 | −23,62% |
O Prefixado 2029 caiu menos de 5%. O IPCA+ 2050, mais de 23%. Repare também no Prefixado com Juros Semestrais 2037: ele vence cinco anos depois do Prefixado 2032, mas caiu quase o mesmo. Isso acontece porque ele paga juros a cada seis meses, e o dinheiro que chega antes sofre menos com o desconto.
E o Tesouro Selic?
O Tesouro Selic quase não se mexe, porque a rentabilidade dele acompanha a Selic dia a dia. Se os juros sobem, ele passa a render mais automaticamente, sem precisar de ajuste no preço. Na segunda, ele seguia pagando Selic + 0,0992%, praticamente igual. É por isso que ele é o título indicado para reserva de emergência: é o único que você pode resgatar a qualquer momento sem o risco de vender na baixa.
Aplicação no mercado
A taxa que aparece no Tesouro Direto não é inventada pelo governo. Ela acompanha o mercado de juros futuros (os contratos de DI da B3), onde bancos, gestoras e investidores estrangeiros apostam diariamente no caminho dos juros. Quando esses agentes passam a enxergar mais risco, seja de inflação, seja nas contas públicas, eles exigem taxas maiores para emprestar ao governo, e o Tesouro Direto acompanha.
Foi o que aconteceu. Desde o primeiro turno, os preços dos ativos refletiam a expectativa de vitória do senador Flávio Bolsonaro, e o resultado do segundo turno desfez essa aposta de uma vez. O DI para janeiro de 2029 fechou a segunda com alta de 2,655 pontos percentuais, a 15,25%.
Em dias assim, o Tesouro Nacional age para conter a volatilidade de três formas:
- Cancela leilões de venda. Os leilões de NTN-B e de prefixados da semana foram cancelados na segunda, e o de LFT, na terça. Se o governo vendesse títulos num mercado em pânico, teria de aceitar taxas ainda mais altas.
- Recompra títulos. Na segunda, o Tesouro recomprou 8,4 milhões de NTN-F, os prefixados, em operação de cerca de R$ 7,1 bilhões, e à tarde mais de R$ 7 bilhões em NTN-B (InfoMoney). Comprar de volta aumenta a procura e ajuda a segurar as taxas.
- Suspende o Tesouro Direto. A plataforma só abriu às 12h13, com quase três horas de atraso. A pausa evita que o investidor pessoa física compre ou venda a preços que mudam a cada minuto, em lógica parecida com a do circuit breaker na bolsa.
Estudo de caso: o Prefixado 2032 entre sexta e terça
R$ 10 mil em quatro momentos
Imagine alguém que aplicou R$ 10.000 no Tesouro Prefixado 2032 no fechamento de sexta-feira (23). O título pagava 12,89% ao ano, foi a 15,78% na abertura de segunda, na maior alta diária da série histórica para os prefixados, e terminou o dia a 15,50%. Aplicando a fórmula, o saldo desse investidor ficou assim:
| Momento | Taxa do Prefixado 2032 | Saldo aproximado | Variação |
|---|---|---|---|
| Sexta (23/10), fechamento | 12,89% | R$ 10.000 | — |
| Segunda (26/10), abertura | 15,78% | R$ 8.780 | −12,2% |
| Segunda (26/10), fechamento | 15,50% | R$ 8.890 | −11,1% |
| Terça (27/10), fechamento | cerca de 15,06% | R$ 9.060 | −9,4% |
Em três dias, o investidor viu o saldo cair mais de R$ 1.200 e recuperar parte disso. Mas nada mudou no contrato. Quem segurar esse título até 1º de janeiro de 2032 recebe os mesmos R$ 1.000 por título que receberia antes da eleição. No caso de R$ 10 mil aplicados na sexta, são cerca de R$ 18.770 brutos no vencimento, exatamente os 12,89% ao ano contratados.
A perda da segunda-feira, portanto, só se torna real para quem vender antes. Para quem segura, ela é uma perda no papel, que vai sendo “devolvida” aos poucos conforme o vencimento se aproxima e o preço converge para R$ 1.000.
O outro lado da mesma moeda
A alta das taxas que machucou quem já tinha o título beneficiou quem comprou depois. Os mesmos R$ 10.000 aplicados no fechamento de segunda, a 15,50%, viram cerca de R$ 21.140 brutos no vencimento. São quase R$ 2.400 a mais que o investidor de sexta, pelo mesmo título.
Isso mostra que a marcação a mercado não cria nem destrói dinheiro no vencimento. Ela redistribui: o preço se ajusta para que o título renda, para quem compra hoje, a taxa que o mercado exige hoje.
Comparação com os maiores sustos da série
O 26 de outubro entrou para a história do programa. Considerando a variação das taxas de abertura entre dois pregões seguidos, no prefixado com maior alta, este é o ranking dos maiores saltos desde 2004 (InfoMoney):
| Posição | Data | Episódio | Alta da taxa (p.p.) |
|---|---|---|---|
| 1º | 26/10/2026 | Reeleição de Lula | 2,88 |
| 2º | 12/03/2020 | Pandemia de Covid-19 | 2,06 |
| 3º | 23/10/2008 | Crise financeira global | 1,88 |
| 4º | 18/05/2017 | Joesley Day | 1,86 |
| 5º | 19/03/2020 | Pandemia de Covid-19 | 1,48 |
Nos títulos atrelados à inflação, o recorde ainda é de 12 de março de 2020, com 1,62 ponto, seguido por esta segunda, com 1,34 ponto. Em todos esses episódios, quem segurou os títulos até o vencimento recebeu o que tinha contratado. O que mudou foi o caminho, e quem precisou vender no meio dele, como vimos no artigo sobre drawdown, realizou a perda.
Riscos e limitações
“É só segurar até o vencimento” é a resposta certa na maioria dos casos, mas tem condições. Entender os limites dela evita surpresas.
- Você pode precisar do dinheiro antes. Um imprevisto, uma oportunidade, uma mudança de planos. Se o resgate cair num momento de taxas altas, a perda vira real. Por isso o prazo do título deve combinar com o prazo do objetivo, e a reserva de emergência fica no Tesouro Selic.
- No prefixado, a inflação pode corroer o ganho mesmo no vencimento. Os 12,89% contratados estão garantidos em reais, mas não em poder de compra. Se a inflação dos próximos anos vier bem acima do que se esperava, o retorno real cai, como mostramos no artigo sobre retorno nominal vs. real. O IPCA+ protege contra esse risco, mas, por ter prazos longos, oscila mais no meio do caminho.
- A liquidez não é instantânea em dias extremos. O Tesouro garante a recompra diária, mas pode suspender as negociações quando a volatilidade é alta, como fez na segunda e na terça.
- As taxas podem subir mais. A queda de terça não garante que o pior passou. Quem vende para “estancar a perda” pode acertar ou errar, e ninguém sabe de antemão.
- Há custo de oportunidade. Quem travou 12,89% na sexta vai receber isso, mas deixou de receber os 15,50% disponíveis dias depois. Não é uma perda contábil, mas é dinheiro que ficou na mesa.
Contexto atual
A terça-feira trouxe um alívio parcial. As taxas dos prefixados fecharam em queda, devolvendo parte da alta recorde, e o Prefixado 2029 recuou de 15,26% para 14,79% ao ano. O Tesouro fez uma nova recompra de NTN-B, de cerca de R$ 16,8 bilhões, e as recompras somaram perto de R$ 31,6 bilhões em dois dias (BPMoney).
Os títulos atrelados à inflação foram na direção contrária. Os vencimentos mais longos subiram de 11 a 24 pontos-base e fecharam acima dos níveis de antes do primeiro turno. É um sinal de que o mercado ainda cobra um prêmio maior para emprestar ao governo por prazos muito longos, e esse prêmio depende das próximas decisões sobre as contas públicas. Na manhã de terça, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ter reafirmado a Lula a necessidade de dar um sinal ao mercado e que o governo tem medidas fiscais prontas.
Hoje à tarde, o foco vai para fora. O Federal Reserve deve manter os juros americanos no intervalo de 3,75% a 4%, segundo a maioria dos analistas. Os juros americanos importam porque servem de referência para o mundo inteiro: se o Fed sinalizar juros mais altos por mais tempo, o capital fica mais caro para países emergentes, e isso pressiona também as taxas brasileiras. Na próxima quarta (4/11), é a vez do Copom.
Conclusão
A marcação a mercado não é um defeito do Tesouro Direto, é o que torna possível vender um título antes do vencimento a um preço justo. O saldo no aplicativo responde a uma pergunta específica: quanto o seu título vale se você vender hoje? Na segunda-feira, a resposta foi “bem menos”, porque o mercado passou a exigir juros muito maiores do governo.
Para quem não precisa vender, a pergunta que importa é outra: qual taxa eu contratei, e ela ainda faz sentido para o meu objetivo? O 26 de outubro de 2026 entrou para a história como o maior salto de juros da série do programa, mas, como nos sustos anteriores, a perda só vira definitiva para quem resgata no meio do caminho. Amanhã, a série segue com o efeito mais lento do choque: como a alta do dólar chega aos preços.
Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Marcação a mercado | Atualização diária do preço de um título pela taxa que o mercado exige naquele dia. |
| Taxa contratada | Rentabilidade travada no momento da compra, recebida integralmente por quem leva o título até o vencimento. |
| Preço unitário (PU) | Valor de um título em reais em determinado dia. |
| Vencimento | Data em que o Tesouro devolve o valor do título ao investidor. |
| Duration | Medida de quanto o preço de um título reage a mudanças na taxa de juros; cresce com o prazo. |
| Ponto-base | Um centésimo de ponto percentual (100 pontos-base = 1 p.p.). |
| Juros futuros (DI) | Contratos da B3 em que o mercado negocia as taxas de juros esperadas para datas futuras. |
| Recompra de títulos | Operação em que o Tesouro compra de volta títulos já emitidos para reduzir a volatilidade. |
| Tesouro Selic (LFT) | Título que acompanha a Selic diariamente e quase não sofre com a marcação a mercado. |
| Custo de oportunidade | O retorno que se deixa de ganhar por ter escolhido uma alternativa em vez de outra. |
Próximos temas
- Repasse cambial: como a alta do dólar chega ao preço do pão, e por que o Banco Central acompanha esse número de perto.
- Curva de juros: como ler nos juros futuros o que o mercado espera do Copom, a poucos dias da reunião de 4 de novembro.
- Prêmio de risco: quanto a bolsa precisa render acima do CDI para compensar o risco, e por que essa régua é tão alta no Brasil.
Referências
- Tesouro Nacional. Série histórica de preços e taxas do Tesouro Direto.
- InfoMoney. Taxas do Tesouro fecham em forte alta após vitória de Lula, mas aliviam após recorde (26/10/2026).
- InfoMoney. Prefixados do Tesouro caem até 47 pontos-base após recorde, mas IPCA+ longos sobem (27/10/2026).
- InfoMoney. Pandemia, Joesley Day, eleição: relembre os maiores sustos do Tesouro Direto (28/10/2026).
- InfoMoney. Ibovespa tem nova baixa após tombo da véspera; dólar perde 1%, a R$ 5,35 (27/10/2026).
- Money Times. Tesouro Direto abre com taxas acima de 8% + IPCA e preços em queda de mais de 20% (26/10/2026).
- InvestNews. Tesouro Direto: IPCA+ com vencimento no longo prazo sobe, mesmo após intervenção (27/10/2026).
- BPMoney. DIs recuam com firmeza em dia de ajuste após salto reativo à reeleição de Lula (27/10/2026).
- Exame. Por que o Tesouro está comprando de volta os próprios títulos após a eleição (27/10/2026).
- Notícias ao Minuto/Lusa. Reserva Federal dos EUA deverá manter hoje taxas e subir em dezembro (28/10/2026).
Imagem de capa: sala de operações do Raiffeisenverband Salzburg. Foto: Raiffeisenverband Salzburg, CC BY 2.0 AT, via Wikimedia Commons. Conteúdo educativo; não é recomendação de investimento.
