Na segunda-feira, o dólar chegou a R$ 5,60 e fechou com a maior alta diária em décadas. Dois dias depois, já estava em R$ 5,34. Para quem olha o painel da corretora, a história parece estar se acalmando. Para quem vai à padaria, ela mal começou: o efeito do câmbio nos preços chega devagar, em etapas, e uma parte dele nunca chega. Entender esse caminho, que os economistas chamam de repasse cambial, é entender o que o Banco Central vai pesar na reunião de 4 de novembro.
Este é o quarto artigo da série sobre o pós-eleição. Depois da análise do que esperar da economia no novo mandato, do circuit breaker, que explicou a bolsa travada, e da marcação a mercado, que explicou o Tesouro Direto no vermelho, agora o assunto é um efeito mais lento: o do câmbio sobre a inflação.
O conceito
Repasse cambial (em inglês, exchange rate pass-through) é a parcela de uma variação do dólar que aparece nos preços ao consumidor. Se o dólar sobe 10% e a inflação acumulada nos meses seguintes fica 1 ponto percentual acima do que seria sem esse choque, o repasse foi de 10%. Os economistas expressam isso como um coeficiente: 0,10.
A conta básica é simples:
Impacto na inflação ≈ coeficiente de repasse × variação do dólar
A parte interessante é o tamanho do coeficiente. A intuição de muita gente é que, se o dólar sobe 10%, tudo fica 10% mais caro. Na prática, o número é bem menor. Em estudo publicado no Relatório de Política Monetária de março de 2026, o Banco Central estimou coeficientes de 0,10 para o IPCA em 12 meses e de 0,16 em 24 meses. Em outras palavras, uma desvalorização de 10% do real somaria cerca de 1 ponto percentual à inflação no primeiro ano e 1,6 ponto em dois anos.
Por que tão pouco? Porque a maior parte do que o brasileiro consome é produzida aqui, com mão de obra, aluguel e energia pagos em reais. Um corte de cabelo, uma mensalidade escolar ou um plano de saúde quase não dependem do dólar. O câmbio pesa muito em alguns itens e quase nada em outros.
Na prática: os três degraus do caminho
O dólar entra nos preços por uma espécie de escada, e cada degrau leva um tempo diferente.
O primeiro degrau são os produtos cotados em dólar: commodities como trigo, milho, soja e petróleo, além de insumos industriais e bens importados. Aqui o efeito é quase imediato, porque o preço desses produtos já nasce em moeda estrangeira. Quando o dólar sobe, quem compra trigo importado paga mais em reais no próximo contrato.
O segundo degrau é o atacado. As indústrias que usam esses insumos (moinhos, fabricantes de ração, refinarias) repassam o custo maior para os seus clientes. É por isso que os índices de preços ao produtor, como o IPA, que compõe o IGP-M, costumam reagir antes e com mais força que o IPCA.
O terceiro degrau é o varejo, medido pelo IPCA. É onde o choque chega mais diluído, porque o preço final mistura o insumo importado com custos locais, e porque a concorrência e a demanda decidem quanto do aumento o comerciante consegue repassar.
O caminho até o pão francês
O pão é um bom exemplo porque depende de uma matéria-prima em que o Brasil não é autossuficiente. Como o país importa cerca de metade do trigo que consome, o preço interno do grão acompanha a chamada paridade de importação, que por sua vez depende do dólar. A indústria do trigo já projeta pressão sobre os custos em 2026 e 2027, com possíveis reflexos nos preços da farinha, de pães, massas e biscoitos.
Uma conta ilustrativa (com números hipotéticos, só para mostrar o mecanismo) ajuda a ver por que o repasse é parcial. Suponha que a farinha represente 30% do custo de produção do pão, e que o resto seja mão de obra, energia, aluguel e margem. Se o dólar sobe 7% e o preço do trigo em dólar não muda, a farinha tende a subir perto de 7% em reais. Como ela é só 30% do custo, o pão sobe cerca de 2,1%: o quilo de R$ 20,00 iria para algo como R$ 20,42. Um choque de 7% no câmbio virou um aumento de 2% na padaria.
Agora estenda o raciocínio para a cesta inteira do IPCA, que inclui serviços, aluguéis e outros itens quase imunes ao câmbio. O choque se dilui ainda mais, e é assim que se chega a coeficientes de 0,10.
Onde o repasse é forte e onde é fraco
O estudo do BC mostra que o repasse muda bastante de um grupo de preços para outro:
| Componente do IPCA | Repasse estimado em 12 meses | O que isso significa |
|---|---|---|
| Alimentação no domicílio | 0,26 | Alta de 10% no dólar soma cerca de 2,6 p.p. à inflação de alimentos |
| Bens industriais | 0,12 | Eletrônicos, veículos e eletrodomésticos sentem, mas menos |
| IPCA cheio | 0,10 | Média de toda a cesta |
| Média dos núcleos | 0,06 | Efeito menor quando se tiram os itens mais voláteis |
| Serviços | Próximo de zero | Mão de obra e aluguel pesam muito mais que o câmbio |
Os alimentos se destacam não só pela intensidade, mas pela velocidade: segundo o BC, o repasse em 12 meses (0,26) já corresponde a quase 80% do efeito acumulado em 24 meses (0,33). Em serviços, o repasse é tão baixo que não dá para descartar que seja nulo. É por isso que um choque cambial costuma aparecer primeiro no supermercado.
Aplicação no mercado
Para o Banco Central, o repasse é uma das variáveis mais importantes depois de um choque. O raciocínio é o seguinte: se o dólar sobe e só os preços de produtos importados se ajustam uma vez, o BC tende a tolerar o salto. O problema começa quando esse aumento contamina o resto da economia, com empresas reajustando preços por precaução, trabalhadores pedindo reajustes maiores e expectativas de inflação subindo. Esses são os chamados efeitos secundários, e é contra eles que a Selic age.
O próprio Copom já descreveu as condições que tornam o repasse maior. Em ata de dezembro de 2024, o colegiado afirmou que o repasse cresce quando a demanda está aquecida, as expectativas estão desancoradas ou a alta do câmbio é vista como persistente. As três condições ajudam a entender por que a mesma alta do dólar pode ter efeitos muito diferentes em momentos diferentes.
Para o investidor, isso conecta os artigos da série. Se o mercado acredita que o repasse vai ser grande, ele espera uma Selic mais alta, e os juros futuros sobem. Quando os juros sobem, os títulos prefixados e atrelados à inflação perdem valor na marcação a mercado. É a mesma cadeia que derrubou o Tesouro Direto na segunda-feira, vista do lado da inflação. O juro neutro entra na mesma conta: quanto mais pressão inflacionária, mais tempo a Selic precisa ficar acima dele.
O repasse também redistribui ganhos e perdas entre empresas. Exportadoras, que recebem em dólar e pagam boa parte dos custos em reais, tendem a se beneficiar. Varejistas e indústrias que dependem de insumos importados ficam espremidas entre um custo maior e um consumidor que nem sempre aceita pagar mais.
Estudo de caso: três choques, três resultados
A melhor forma de ver que o repasse depende do contexto é comparar episódios em que o dólar subiu muito em pouco tempo.
| Episódio | Alta do dólar no ano | IPCA no ano | IGP-M no ano | O que pesou |
|---|---|---|---|---|
| 2002 (eleição e crise de confiança) | +52% | 12,53% | 25,31% | Expectativas desancoradas e câmbio persistente |
| 2015 (crise fiscal e recessão) | +47% | 10,67% | 10,54% | Câmbio somado a um forte reajuste de preços administrados, como energia |
| 2020 (pandemia) | +29% | 4,52% | 23,14% | Economia parada segurou o varejo, mas o atacado explodiu |
Em 2002, o choque veio junto com uma crise de confiança na política econômica. O dólar subiu muito, o mercado passou a esperar mais inflação, e o repasse ganhou força. O IPCA passou de 12% e o BC precisou elevar a Selic de forma agressiva no ano seguinte.
Em 2015, o IPCA também passou de 10%, mas o câmbio dividiu a responsabilidade com outro fator: o governo corrigiu de uma vez preços que estavam represados, e a conta de luz subiu mais de 50% no ano. Separar o que foi câmbio e o que foi reajuste administrado é difícil, e isso ilustra um dos limites das estimativas.
O caso de 2020 é o mais revelador. O dólar subiu quase 30%, e o IGP-M, puxado pelo atacado e pelas commodities, passou de 23%. Mesmo assim, o IPCA fechou o ano em 4,52%. Com o comércio fechado e o desemprego alto, as empresas não conseguiram repassar o custo ao consumidor. O primeiro e o segundo degraus da escada subiram muito; o terceiro, pouco.
A lição dos três episódios é que o mesmo choque cambial pode gerar resultados muito diferentes no IPCA. O que muda o tamanho do repasse é o ambiente: a força da demanda, a credibilidade do BC e a percepção de que a alta do dólar veio para ficar.
Riscos e limitações
A primeira limitação é a incerteza das estimativas. O próprio Banco Central ressalta que os intervalos de confiança são amplos em todos os casos e que métodos diferentes podem chegar a números diferentes. Os coeficientes servem como ordem de grandeza, não como previsão exata.
A segunda é que o repasse não é linear. Pesquisas sobre o Brasil encontram sinais de assimetria: altas do dólar tendem a ser repassadas com mais força do que quedas. Um choque grande também pode ter efeito proporcionalmente maior que vários choques pequenos, porque força as empresas a revisar tabelas de preço.
A terceira é que o dólar não anda sozinho. Muitas vezes, quando o real se desvaloriza, os preços das commodities em dólar estão caindo, e um efeito compensa parte do outro. Por isso o BC controla os preços de commodities nas suas estimativas; sem esse ajuste, o repasse pareceria menor do que é.
Por último, o choque pode se desfazer. O repasse depende de quanto tempo o câmbio fica no novo patamar. Um dólar que sobe 8% num dia e devolve parte da alta na semana seguinte tem efeito menor que um dólar que se estabiliza num nível mais alto por meses. Por isso, ainda é cedo para transformar o salto desta semana numa previsão de inflação.
Contexto atual
O tamanho do choque já mudou bastante em poucos dias. Depois da disparada de 8,21% na segunda-feira, que levou o dólar a R$ 5,40 no fechamento, a moeda chegou a ser negociada a R$ 5,60 durante o pregão, mas dois dias depois já estava perto de R$ 5,30. Na quarta-feira, fechou a R$ 5,34, em queda de 0,19%, mas ainda acumula alta de 6,95% na semana e de 3,19% em outubro.
Uma conta de ordem de grandeza mostra o que está em jogo. Em relação ao fechamento de antes da eleição, perto de R$ 4,99, o dólar de ontem representa uma alta de cerca de 7%. Aplicando os coeficientes do BC, e supondo que o câmbio fique nesse nível, o efeito seria de aproximadamente 0,7 ponto percentual a mais no IPCA em 12 meses e de 1,1 ponto em 24 meses. Na alimentação no domicílio, o impacto em 12 meses ficaria perto de 1,8 ponto. É uma conta simplificada, que não considera commodities nem mudanças nas expectativas, mas mostra por que o assunto preocupa.
O ponto de partida também não ajuda. Em 12 meses até setembro, o IPCA acumulava 4,58%, acima do teto de 4,5% e longe da meta de 3%. O Boletim Focus de segunda-feira mostrou projeção de 5,19% para o IPCA de 2026 e de 4,34% para 2027, com dólar a R$ 5,05 no fim deste ano. Como o Focus reúne projeções enviadas até a semana anterior, esses números ainda não incorporam o choque: o dólar de hoje já está quase 30 centavos acima do que o mercado esperava para dezembro. O próximo boletim, na segunda-feira, deve mostrar a primeira reação.
Nos juros, o mercado já fez a conta. Depois da eleição, as taxas de curto prazo dispararam e a curva passou a embutir alta de 0,50 ponto da Selic, hoje em 13,75%, em dezembro, e de mais 0,25 ponto em janeiro. Antes da eleição, a expectativa era de cortes.
No exterior, o Fed manteve os juros americanos entre 3,75% e 4% na quarta-feira, mas a decisão não foi unânime: dois membros votaram por uma alta. Juros altos nos Estados Unidos reduzem a vantagem de aplicar em reais e tornam mais difícil uma queda rápida do dólar.
Os próximos gatilhos estão próximos. Na sexta-feira (30), saem a PNAD Contínua, que mostra a força do mercado de trabalho, e as estatísticas fiscais do Banco Central. As duas ajudam a responder duas perguntas do repasse: se a demanda está forte o bastante para as empresas repassarem custos, e se o choque cambial tende a ser persistente. Na quarta-feira (4), o Copom se reúne.
Conclusão
O repasse cambial explica por que o dólar mais caro não vira, de uma vez, preços mais altos em tudo. O choque chega em etapas: primeiro nas commodities, depois no atacado e, por último e de forma diluída, no varejo. No Brasil, a estimativa central do Banco Central é que cada 10% de alta do dólar some cerca de 1 ponto percentual ao IPCA em um ano, com efeito bem maior nos alimentos e quase nenhum nos serviços.
O mais importante, porém, é que esse número não é fixo. Ele cresce quando a economia está aquecida, quando as expectativas se descolam da meta e quando o mercado passa a ver o dólar alto como permanente. É exatamente isso que o Copom vai tentar avaliar na semana que vem. Se o câmbio continuar devolvendo parte da alta, o repasse tende a ser contido. Se ele se firmar num patamar mais alto, o pão, a carne e o óleo de cozinha vão mostrar a conta, e a Selic vai responder.
Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Repasse cambial (pass-through) | Parcela de uma variação do dólar que aparece nos preços ao consumidor. |
| Coeficiente de repasse | Número que resume o repasse. Um coeficiente de 0,10 significa que uma alta de 10% no dólar soma 1 ponto percentual à inflação. |
| p.p. (ponto percentual) | Diferença absoluta entre duas taxas. Se a inflação passa de 4% para 5%, ela subiu 1 p.p. |
| Paridade de importação | Preço que um produto teria se fosse importado, somando cotação internacional, câmbio, frete e impostos. Serve de referência para o preço interno. |
| IPA e IGP-M | Índices da FGV. O IPA mede preços no atacado e é o principal componente do IGP-M, que por isso reage mais rápido ao câmbio que o IPCA. |
| Bens comercializáveis | Produtos que podem ser exportados ou importados e, por isso, sofrem mais influência dos preços externos. |
| Preços administrados | Preços definidos por contrato ou regulados pelo governo, como energia, combustíveis e tarifas de transporte. |
| Núcleos de inflação | Medidas que excluem ou suavizam os itens mais voláteis do IPCA para mostrar a tendência da inflação. |
| Efeitos secundários | Quando um choque de preços inicial se espalha para outros preços, salários e expectativas. |
| Expectativas ancoradas | Quando o mercado acredita que a inflação vai voltar para a meta, mesmo depois de um choque. |
Próximos temas
- Prévia do Copom: o que o Banco Central vai pesar na reunião de 4 de novembro, e como ler o comunicado.
- Prêmio de risco: quanto a bolsa precisa render acima do CDI para compensar o risco, e por que essa régua é tão alta no Brasil.
- Swap cambial: como o Banco Central age para conter o dólar sem gastar reservas, e quando isso funciona.
Referências
- Banco Central do Brasil. Repasse cambial: estimativas por projeções locais. Relatório de Política Monetária, boxe (março de 2026).
- InfoMoney. Dólar hoje vai a R$ 5,34, com noticiário eleitoral e decisão do Fed que manteve juros (28/10/2026).
- BP Money. Dólar recua para R$ 5,34 após Fed manter juros e incertezas fiscais no Brasil (28/10/2026).
- Space Money. Dólar recua a R$ 5,34, mas sobe 6,95% na semana (28/10/2026).
- Brasil 61. Dólar cai 0,19% e fecha cotado a R$ 5,34 (28/10/2026).
- Forbes Brasil. Ações brasileiras desabam após eleição; movimento alerta para nova alta da Selic (outubro de 2026).
- Forbes Brasil. Focus pós-eleição: mercado corta projeções para PIB, inflação e dólar em 2026 (26/10/2026).
- Acionista. O que muda na economia se Lula ou Flávio vencer (outubro de 2026).
- Agrolink. Trigo: Brasil vai importar 7,1 milhões de toneladas, o maior volume em quase 20 anos (2026).
- Revista Cultivar. Brasil poderá importar até 9 milhões de toneladas de trigo em 2026 (23/10/2026).
- Folha Vitória/Estadão Conteúdo. Repasse do dólar aos preços está maior que o normal e eleva preocupação com inflação (dezembro de 2024).
- IBGE. Séries históricas do IPCA. FGV. Séries históricas do IGP-M.
Imagem de capa: quadros de cotação em duas casas de câmbio de Amsterdam, com taxas diferentes para o dólar logo após uma desvalorização da moeda. Foto: Nationaal Archief / Anefo, via Wikimedia Commons.
